Pombas

Pombas

Em 1950 o colégio Nossa Senhora Auxiliadora costumava manter em seu mural principal uma bela imagem da santa com o Menino-Deus nos braços. Sob os pés descalços da imagem, uma estradinha de terra batida cercada de mato. E voejando em torno da nobre cabeça, anjos recortados num céu de rosas e anis.

Durante a época das terríveis provas de fim de ano as freirinhas, cruéis, escreviam o nome de cada uma das alunas numa figura de pombinha branca e os punham no mural, junto à imagem da santa.

Havia um critério rigoroso sobre o lugar em que cada pombinha era posta.

De primeiro, aquelas que tiravam as melhores notas tinham sua pomba voando em meio aos anjinhos, e eram tidas quase como se também fossem anjos.

As que tiravam notas medianas viam suas pombinhas serem colocadas à altura da cintura da imagem, o que não era a melhor coisa, mas também não as levava ao inferno de Dante.

E por último aquelas, poucas, pouquíssimas, levadas da breca, as terríveis, as que já tinham o purgatório como destino certo, as absurdas... a essas cabia a poeira da estradinha de terra e os espinhos do mato, que ficavam em volta dos pés descalços da Nossa Senhora. Suas pombinhas eram desprezadas, humilhadas, e ficavam ali naquele flagrante de crime por um mês, que era o quanto durava o tormento.

Eram as pombas-sujas da época.

Mammy era uma dessas. Mammy não queria nada com a hora do Brasil. Não gostava de estudar, amava fazer bagunça, fazia hora com a cara das freiras, pintava e bordava, colava das colegas nas provas, virava o cós da saia pra mostrar as pernas, levava na bolsa um par de sapatos de salto para quando saísse do colégio, era um terror.

Sendo assim, a pombinha com o nome de Mammy não tinha outro lugar senão a poeira do caminho..

E as colega boazinhas, as santinhas do pau-oco, as que voavam sobre a cabeça de Nossa Senhora, tripudiavam de Mammy, vingando-se assim de tantas aprontações e danações dela.

Mas Mammy não estava nem ai! Ao chegar ( sempre atrasada! ) pela manhã, calmamente trocava tudo de lugar. Punha a sua pombinha bem no alto, a mais alta de todas, e depois apanhava as pombinhas das mais estudiosas e punha todas beeem abaixo dos pés da santa. E seguia feliz pra sala de aula.

Somente durante o recreio era descoberta a marmota.

E ela ficava de longe, rindo, rindo, rindo...


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