A FEIRA DETRÁS DA BANCA

A Feira Detrás da Banca

Ficava em Juazeiro, por detrás do elevado que nivelava a cidade com a ponte Presidente Dutra. Chamávamos Banca aquela construção que parecia uma muralha, e que acabou por separar a cidade em dois segmentos, sendo que apenas um recebeu nome de batismo: Atrás da Banca.

Atrás da Banca não era morada nobre. Era um trecho mais popular, que abrigava entre outras coisas o mercado, o curtume, e a feira livre. E era também a parte da cidade que eu mais gostava.

Desde sempre eu fui às compras na feira, acompanhando minha mãe. Muitos motivos me levavam a gostar do programa.. os cheiros das frutas e verduras, a forma frágil das barraquinhas, que talvez não suportassem um vento mais forte, a presença do povo simples e real, a linguagem diferente que se falava por lá, e muito especialmente a vivacidade e o entusiasmo dela, exímia negociante, bagunceira e divertida, conhecedora de todos os feirantes pelo nome, sabia das histórias de cada um, dos filhos, do marido beberrão de uma, da sogra meio amalucada de outra, da amante de outro, das intrigas e das amizades.

O sol sertanejo castigava as barraquinhas e o povo. A feira era comprida, intrincada, e vendia toda a sorte de produtos. Colchões de palha forrados de chita florida, grandes potes de barro, moringas, panelas de alumínio, peneiras, coadores de café feitos de algodãozinho, roupas estampadas, enfeitadas por sianinhas e babados, requeijões, queijos de leite de cabra, barras de doces coloridos, cor-de-rosas, amarelos, cocadas, vassouras de piaçava, rolos de fumo, incensos, garrafadas, folhagens, frutas e verduras, peixes de água doce, galinhas e porcos, uma confusão tão viva e tão alegre que não houve jeito de não se apaixonar por aquilo.

Com minha mãe fui aprendendo a comprar. A escolher laranjas pelo toque, pela casca brilhante, pouco enrugada, a enxergar na fruta o doce, a refutar as que não obedeciam às regras. Era um aprendizado muito diferente, muito intuitivo, não havia uma didática exata, era muito mais um jeito, um olhar, pelo tato, pelo cheiro, umas maneiras.. A verdade é que eu aprendi direitinho, e nem levou tanto tempo assim.

Tomates. Ela dizia: _ Não há tomates como os rasteiros, esses aqui, os mais mirrados, que não têm uma forma muito bonita, mas são tão vermelhinhos e suculentos, e dão uma salada espetacular. Aqueles tomatões enormes, que parecem caquis, não são grande coisa. Só têm mesmo beleza, como tanta gente que conhecemos, só beleza e nada mais pra dar, né? _ Eu concordava, há muito tempo que já sabia dessa farsa da beleza que não põe mesa.

Pimenta do reino e cominho. _ Só moídos na hora, você tem que ver moer, tem que sentir o cheiro subir, está vendo aqui essa moendinha? _ sobre a mesa do feirante havia uma pequena moenda, parecendo de brinquedo, com uma gavetinha para recolher o produto pronto. Eu achava lindo e já queria ter uma igual pra mim.. meninos são todos iguais, né?

Abacaxis. _ Aperte-os na bunda. Se estiver mole, nem compre. Estão passados. Abacaxí é fruta que se compra ainda verdosa. Espera amadurecer em casa.

Limões. _ Toque-os um por um. A casca tem que estar como a da laranja, brilhante, mas ao apertar deve estar mole. Lembre-se que ele vai ser espremido, e é muito ruim espremer limões duros!

Eu ria, achava muita graça das explicações dela. Mas nunca esqueci.

Minha mãe me ensinou a comprar farinha, a saber se estava ou não torrada no ponto certo. E a conhecer abóboras só em vê-las. E a comprar mel de abelha verdadeiro, sem ser de açúcar, até mel o povo arranja um jeito de falsificar, e não é de hoje.. Me ensinou a escolher cebolas, temperos verdes, couves, a encontrar mangas doces e melancias... a comer comida de feirante, uma deliciosa memória!..

_ As melhores vassouras são as compradas na feira. Vassoura de piaçava, boa, leve, de cerdas firmes, sem desmanchar, a gente encontra na feira. Lembre-se sempre disso! _ e eu assentia com a cabeça, sempre rindo, sempre me divertindo com ela, a melhor fazendeira de feira que já vi.

São tantas coisas, tantos detalhes, uma feira é uma enciclopédia, um tratado antropológico, pode-se aprender muito por lá..

Além de ser bonita e simples, como tudo o que é bonito deve ser.

Sei não, viu.. As vezes me pego com saudades de mammy.

Não é engraçado?


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